1. Introdução

O cenário macroeconômico contemporâneo, marcado por volatilidade fiscal, ciclos de aperto monetário e incertezas geopolíticas mundiais, impõe severos desafios à preservação de capital. No contexto brasileiro, marcado historicamente por choques inflacionários e depreciação cambial estrutural, a análise ingênua das métricas de desempenho nominal é uma das principais fontes de destruição silenciosa de riqueza para o investidor.

Um dos fenômenos centrais na finança comportamental e na macroeconomia aplicada é a ilusão monetária (money illusion), termo cunhado por Irving Fisher (1928) e amplamente desenvolvido pela economia moderna. O conceito descreve a tendência cognitiva dos agentes econômicos de avaliar transações, fluxos de caixa e acumulados patrimoniais em termos nominais, em vez de mensurá-los em termos reais (ajustados pelo poder de compra da moeda). Quando a taxa de variação do nível geral de preços ($\pi$) ou a depreciação da moeda doméstica frente a divisas internacionais suplantam os ganhos nominais de um portfólio ($i$), ocorre uma erosão patrimonial líquida, ainda que o saldo nominal do investidor apresente expansão.

Neste trabalho, investigo a extensão dessa ilusão no mercado financeiro brasileiro por meio de duas dimensões complementares:

  1. A dimensão doméstica: a capacidade dos títulos pós-fixados indexados ao CDI de superar o IPCA.
  2. A dimensão internacional: o efeito do risco de taxa de câmbio sobre a renda variável local (comparando Ibovespa em Reais vs. Ibovespa dolarizado).

2. Análise Empírica do Histórico Temporal (2015–2025): CDI vs. IPCA

Para compreender os mecanismos de corrosão do valor real do capital, analisei a série histórica do retorno nominal acumulado do CDI e do IPCA ao longo do período compreendido entre 2015 e 2025.

CDI + IPCA.jpeg

Durante essa década, o mercado brasileiro atravessou múltiplos regimes de política monetária e choques macroeconômicos:

2015–2016: Período de forte recessão e aperto monetário, no qual o CDI superou os 13% ao ano para conter uma inflação que ultrapassava os dois dígitos (10,67% em 2015). • 2017–2020: Fase de convergência inflacionária e queda histórica da taxa básica de juros (Selic), atingindo a mínima de 2,00% a.a. em 2020 sob os efeitos do choque pandêmico. • 2021: Período crítico de desacoplamento, no qual a inflação ressurgiu fortemente (10,06%), impulsionada por choques nas cadeias globais de suprimentos e desvalorização cambial, enquanto a taxa de juros nominal (CDI) permaneceu defasada (4,42%). • 2022–2025: Reversão do ciclo com aperto monetário vigoroso, reconduzindo o CDI a patamares superiores a 12%–14% a.a. para reancorar as expectativas inflacionárias.

A observação detida dessa série temporal revela que a rentabilidade dos ativos pós-fixados não é homogênea ao longo do tempo. Embora o acumulado nominal do CDI no decênio pareça expressivo, a dinâmica de anos específicos demonstra que depender integralmente da taxa pós-fixada sem diversificação cria janelas de destruição de capital real.

Para ilustrar de forma rigorosa a mecânica dessa erosão, destacamos dois anos de comportamento contrastante da série: 2015 (representativo de um regime de juros reais positivos) e 2021 (representativo de um choque inflacionário com juros reais profundamente negativos).

3. Formulação Matemática e Revisão Crítica dos Cálculos de Retorno Real

Na prática de mercado informal, é frequente a utilização da aproximação linear/subtrativa para o cálculo da taxa de juros real ($r_{\text{aprox}}$):

$$ r_{\text{aprox}} = i - \pi $$

Contudo, do ponto de vista da matemática financeira rigorosa e da teoria macroeconômica, essa subtração simples introduz erros de mensuração não negligenciáveis, especialmente em economias com inflação e juros de dois dígitos.

3.1. A Equação de Fisher Exata

O retorno real exato ($r$) é derivado da Equação de Fisher, que estabelece a relação multiplicativa entre os fatores de capitalização nominal, inflacionária e real:

$$ (1 + i) = (1 + r) \cdot (1 + \pi) $$

Isolando o retorno real ($r$), obtém-se a fórmula exata: