Marcos:
"Amigos, tenho acompanhado de longe a movimentação deste grupo selvagem. Tempos difíceis. Lembrei de algo que eu vi alguns dias antes da eleição, um vídeo do Marcos Coimbra (um dos donos desses institutos de pesquisa) no qual ele afirma que 40% do eleitorado segue o padrão dos 3 Bs: baixo interesse, baixa informação, baixo engajamento. Segundo ele, são pessoas que não conseguem responder a nenhuma das questões propostas, mesmo as mais básicas (Quem é o governador do estado? Qual são os senadores do seu estado e qual a duração do mandato? Em quem você votou para deputado?) Nada. E são 40%. A gente fica quebrando a cabeça tentando entender o que está acontecendo no Brasil (e no mundo, porque esse fenômeno é global; aqui é mais agudo pela nossa contingência histórica e pela nossa desigualdade obscena), achando que mais da metade da população ou é burra ou é canalha, ou ambas as coisas... De fato, tem umas pessoas que a gente conhece e sabe que são burras; algumas outras são canalhas mesmo. O difícil de compreender são aquelas que a gente achava que não eram burras e nem canalhas. Conheço uns 3 ou 4 assim. Fico quebrando a cabeça prá entender o que se passa, o que significa esse ódio entranhado a qualquer coisa que pareça ser “de esquerda” que faz com que elas abracem essa ideologia de extrema direita raivosa, violenta, excludente, fascista mesmo. Estou lendo a biografia do Carlos Lacerda, do Mário Magalhães. A demonização da esquerda vem lá de trás, já existe isso desde os anos 1920s. Mas, me parece que essa caracterização da esquerda é mais simbólica do que qualquer outra coisa: no Brasil, as elites demonizam qualquer ideia ou apenas a possibilidade (ou nem isso, às vezes é só paranoia) de perder alguns de seus privilégios. Tremem de medo e ódio diante da ideia de alguma igualdade. E reagem com ferocidade extrema. Somos um país que foi forjado na relação Senhor/Escravizado. Essa é a nossa história, a nossa herança. 350 anos assim. E essa lógica de violência, de brutalidade, de exploração, de extração, de pilhagem, de abuso e autoritarismo continua valendo, agora de maneira ainda mais explícita. Isso é claro na história do Brasil: as elites, que são mais ou menos as mesmas desde o século XVII (e de modo geral ligadas à terra, ao agronegócio), reagem como dragões enlouquecidos a qualquer possibilidade (real ou imaginária) de perder seus privilégios. Todos os golpes que aconteceram aqui, começando pela derrubada da monarquia, foram reações a alguma tentativa de garantir aos mais pobres algum tipo de direito. Todos. E todos esses reacionários usam o mesmo mantra: esse governo é corrupto, está mergulhado num mar de lama (expressão que o Carlos Lacerda criou). É sempre essa história de corrupção para disfarçar o fato de que os donos do poder não abrem mão de nenhum de seus privilégios. De qualquer forma, as pessoas (eu mesmo; faço um mea culpa envergonhado aqui) ficaram anos lendo Folha, Estadão, Veja, O Globo, e assistindo a rede Globo, e a nossa educação precária não nos forneceu os instrumentos necessários (capacidade analítica, crítica, de poder desvelar a agenda oculta de cada um desses veículos de imprensa) para perceber o quanto eles moldaram a cabeça das pessoas (e as nossas) nesse mesmo sentido de sempre demonizar aqueles que tentam tornar a nossa sociedade um pouco mais justa e menos desigual. Claro, isso para quem tinha acesso e possibilidade de ler e se informar: a grande maioria dos brasileiros lutava, e luta, apenas para sobreviver, extenuados, exauridos e sugados por todas essas forças dominantes que citei acima. Hoje, nos nossos dias, junte-se a isso a atuação de igrejas evangélicas e redes sociais, e o resultado é esse que estamos vendo: um país inteiro rumando para um abismo do qual não sairemos por pelo menos uns 30 anos. Uma sociedade enlouquecida, onde os mais pobres defendem com unhas e dentes a agenda da Faria Lima. Sinceramente, não sei como vamos sair desse buraco. Lula pode até reverter o resultado e sair vencedor (oxalá!), mas isso não muda o quadro. A esquerda não tem nenhum quadro para sucedê-lo. Direita não existe mais e o tal centrão confraterniza gostosamente com a extrema-direita, mais forte do que nunca. Fico me perguntando: até que ponto iremos tolerar essa devastação total do planeta e da civilização, essa cassação dos direitos dos cidadãos, essa exploração desmedida de todos nós que não somos parte do 1% mais rico, do abuso e da humilhação dos mais fracos e vulneráveis que essa extrema direita capitaneada por meia dúzia de bilionários psicopatas tem imposto ao mundo sem nenhum pudor? Desculpem o texto longo e meio desconexo: é mais um sintoma da perplexidade e do desalento pós-eleição que eu, como tantos outros, tenho sentido. Se alguém chegou até o fim, agradeço do fundo do meu coração. Um grande abraço a todos os pensadores selvagens!"
Marcos, então... Por aqui estou me mobilizando, cada vez mais, para cumprir este senso de missão que tenho comigo: que é o de virar o TOPO DO MUNDO ÀS AVESSAS. Sozinho, faço nada Mas não tô parado tô aqui, no meio do capitalismo, brincando de Minecraft com minha picaretinha: extraindo recursos do sistema e usando ele mesmo pra criar um certo volume que me deixe livre (com tempo, pois recurso intelectual e energia tenho de sobras). e vai dar certo... Em um horizonte que prefiro não pré-determinar nem anunciar publicamente - pra não dar zica - vou conseguir me dedicar muy ativamente a iniciativas como o próprio OPS!, a Coolmeia e tudo o mais eu não vejo outro caminho a não ser criar uma "Quarta Via" ou uma "Outra Via" que seja totalmente alheia ao circo pseudodemocrático vigente. Precisamos criar nossos túneis, nossas rotas de fuga, nossos "paraísos em vida" que não sejam rastreáveis ou tomados de nós e isso nunca foi tão possível mas é necessário articulação forte e coesa, pessoas de fé dedicadas em tempo integral a essa misssão mas todos estamos submersos nos nossos boletos e familias e projetos e compromissos pessoais mas, creia, eu aqui não tô parado - só tô fazendo o movimento de criar a força necessária para que esta minha vida não seja em vão
Rafael, queria ter 1% da sua energia e do seu entusiasmo! E você está corretíssimo: temos que criar uma quarta via, como você chamou, temos que inventar um caminho, voltar a sonhar com o novo, com o melhor, com a vida plena para todos. Lembro, mal lembrado, de uns versos do Murilo Mendes: A ode explode./ O bode explode./ A mina explode./ A mitra explode./ Exceto a Bomba: o homem não pode./ O homem não pode. / O homem pode:/ Soltar a Vida. Fuzilar a Bomba./ Reinventar a ode. Acho que é isso: temos que reinventar a ode.
Marcos, meu amigo selvagem,
Li teu texto inteiro — não por perseverança, mas porque ele nos captura pela lucidez, pela dor e por essa perplexidade que também me habita. Há momentos em que compreender o Brasil parece uma tentativa de fazer cartografia durante um terremoto: quando pensamos ter localizado o abismo, o chão se move novamente.
A informação dos “três Bs” ajuda a explicar parte do fenômeno, mas talvez seja importante acrescentar outros: baixa disponibilidade de tempo, baixa esperança e brutalização cotidiana. Uma pessoa exausta, precarizada, bombardeada por estímulos e obrigada a lutar diariamente para sobreviver não dispõe da mesma energia psíquica para acompanhar instituições, verificar fontes e compreender processos históricos. A desinformação não encontra apenas ignorância; encontra cansaço, medo, ressentimento, solidão e necessidade de pertencimento.
Por isso, resisto à tentação — embora às vezes ela seja enorme — de dividir a população entre burros e canalhas. Há os canalhas, sem dúvida; e alguns são canalhas com pós-doutorado. Mas existem também pessoas inteligentes capturadas por narrativas que oferecem três coisas muito poderosas: um inimigo simples, uma comunidade à qual pertencer e a sensação de superioridade moral. A extrema-direita não vende apenas ideias: vende identidade, acolhimento tribal e autorização para transformar frustrações difusas em ódio dirigido.
O espanto diante daqueles que conhecíamos e julgávamos razoáveis talvez venha daí. Não é necessariamente a inteligência que desapareceu; em muitos casos, ela foi sequestrada pelo medo. E a inteligência, quando colocada a serviço de uma identidade ameaçada, torna-se uma extraordinária advogada de absurdos.
Concordo contigo sobre a profundidade histórica do problema. O Brasil não apenas teve escravidão: foi estruturado por ela. A Casa-Grande não ficou para trás; modernizou a fachada, abriu uma holding, contratou uma assessoria de comunicação e continuou operando. Persistem entre nós a naturalização da hierarquia, o desprezo pelo trabalho, o medo da igualdade e a crença de que alguns nasceram para mandar enquanto outros devem agradecer por sobreviver.
Por isso, tantas vezes a simples proposta de repartir um pouco melhor a riqueza, ampliar direitos ou reconhecer a dignidade de grupos historicamente violentados é apresentada como ameaça civilizacional. Não é a “esquerda” concreta que muitos odeiam. Odeiam um símbolo fabricado: tudo aquilo que possa limitar o poder dos de cima, desorganizar a velha ordem ou permitir que os de baixo levantem a cabeça.
Também fazemos bem em reconhecer nossa própria formação. Durante décadas, consumimos veículos que se apresentavam como espelhos neutros da realidade, quando eram também máquinas de selecionar, enquadrar, silenciar e hierarquizar acontecimentos. Isso não significa que toda imprensa seja igual ou que devamos abandonar o jornalismo profissional — especialmente agora, em meio à lama algorítmica. Significa aprender a perguntar sempre: quem fala, a partir de onde, a serviço de quais interesses e, sobretudo, o que ficou fora do enquadramento?