Rhia possuía uma inclinação para o sentimentalismo que havia a vencido pelo cansaço há alguns bons anos. Foi uma batalha honrada, com muito esforço da parte dela, mas que jamais seria uma vitória sua.

A risada de Gina ecoava em sua mente, acompanhada das palavras “não adianta pagar de durona, passarinho, você é libriana”, que se repetiam toda vez que Rhia, criança teimosa e toda irritada, fazia aquela carinha, com as bochechas cheias do ar que ela segurava e os olhinhos estreitos, concentrada tentando engolir o choro que ousava desafiá-la. Óbvio que ele sempre vinha.

Então, ao falarem sobre guardar memórias numa caixinha, seu coração sentimental não a deixaria sossegar sem fazer exatamente aquilo, e com muito cuidado, muito carinho. Era como uma criança puxando a sua manga a cada dois passos, perguntando quando a gente vai fazer o negócio?

E lá estava ela, sentada na sala de casa, fazendo o negócio.

Tinha pegado uma caixinha decorada entre as coisas do brechó e, espalhado em sua frente, algumas coisas que gostava muito mas que não eram tão indispensáveis. Coisas que seu coração-sentimental não tinha agarrado e falado não, essa não! quando ela pensou em pegar.

Colocou primeiro na caixinha uma das inúmeras polaroids em que sua mão aparecia entrelaçada a do marido, as alianças, na época ainda de noivado, brilhando no sol de uma manhã na praia que havia mudado sua vida. Uma de suas memórias mais bonitas, quando ambos pediram um ao outro em casamento ao mesmo tempo. Tinha sido difícil escolher entre tantas memórias ao lado de Inguk. Quase dois anos juntos e, se ela pudesse, guardaria cada dia numa caixinha como aquela e os revisitaria o tempo todo. Não que não tentasse; o que não faltava era pequenas coisinhas que guardava de lembrança.

Riu baixinho sozinha ao pensar poxa, devia ter guardado o cílio que ele soprou aquele dia…

Junto daquilo, colocou uma palheta velha de uma banda que ninguém, nem ela mesma, conhecia. Era uma das muitas palhetas que tinha roubado do antigo chefe. Estava entre as coisas que Rhia achava que merecia por ter que aguentar o monte de roqueiro insuportável que visitava Echo Records semanalmente e que sempre tinham algo desagradável sobre si, principalmente o cheiro. Todo sábado, ela roubava uma palheta. Se a semana tinha sido particularmente ruim, ela roubava duas e um CD. O velho devia saber, mas nunca reclamou o suficiente para que ela parasse.

Em terceiro, e sem seguir uma ordem cronológica que fizesse sentido, colocou uma das coleiras de Bob, ainda de sua época de filhote. Aos poucos ele já se tornava um cachorro adulto. Será que sentiria um aperto tão grande quanto sentia agora quando pensasse o mesmo de seus filhos humanos no futuro? Bob seria um ótimo irmão mais velho.

A quarta memória acrescentada era uma folha com nomes. Vários nomes, que ela lia e relia, se obrigava a lembrar e nunca, nunca deixar de lado. Richard, Donnie, Izzy, Moxie, Gunwoo, Aehwa, Nahyun, Heather, Roxy, Milo, Magdalena. Pessoas que estiveram em sua vida, não importava por quanto tempo, e que seriam sempre parte de quem Rhiannon era. Ao lado de cada nome, um pequeno rabisco, o nome de uma música, um apelidinho carinhoso…

Olhando para sua seleção de memórias, Rhia sentiu falta de algo que as conectasse, que ajudasse alguém no futuro a entender seu intuito com aquilo.

Para ela, aquele sempre seria o papel da música. Depois de mais algumas horas empenhada na tarefa, colocou junto na caixinha uma folha rabiscada, rasurada e quase amassada, com um pequeno trechinho escrito por ela. Em cima das palavras, já tinha colocado os acordes que pensou enquanto escrevia, a melodia lenta que não sairia da sua cabeça tão cedo…

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I know I can’t hold forever in my hands, but what if I can do it in my heart?

Maybe if I do the best I can, I’ll keep the end far from the start

And every moment, every plan, every single little star

From every day together spent, will still shine when we‘re apart

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