Há paradigmas no meio corporativo do Design Digital brasileiro que prejudicam enormemente a atividade profissional das mulheres desta área , e, por isso, merecem ser repensados. Dois deles são: a disparidade financeira entre homens e mulheres ao realizarem a mesma função e o baixo número de mulheres nos cargos que recebem os maiores salários. Segundo a pesquisa Panorama UX 2019 (LESLIE, 2019), o número de mulheres que ocupam posições de gerência é consideravelmente menor do que o de homens, como podemos ver na imagem abaixo. Quando comparamos os ganhos entre os gêneros na imagem abaixo fica clara a maior recorrência de homens com os maiores salários dentro do UX Design e Design Digital. Sendo que o teto feminino chega a 24 mil reais, enquanto o masculino chega até 28 mil mensais.

Fonte: Resposta para pergunta sobre educação da pesquisa Panorama UX 2020

Fonte: Panorama UX, retirado do site Brasil UX Design, dezembro de 2019
Já quando comparamos os dados obtidos sobre escolaridade, na mesma pesquisa do ano seguinte, Panorama UX 2020 (LESLIE, 2020), com a tabela anterior de ganhos por gênero, constatamos que ambos os gêneros têm um número muito próximo de homens e mulheres com ensino superior completo na área, com uma leve vantagem para os homens e o mesmo grau de escolarização a partir do nível de pós graduação até o doutorado. Os dados acima revelam que mesmo com um nível de conhecimento formal extremamente similar, os homens levam grande vantagem financeira em relação às mulheres.
Há uma ausência de espanto em relação ao menor número de mulheres nas posições mais bem remuneradas das empresas, pois segundo a pesquisa realizada na dissertação: "O Papel da Mulher no Design Digital: Uma Investigação a Partir da Trajetória Feminina dos Anos 70" (Brêtas, 2022), quando perguntadas sobre se ganhavam o mesmo que seus pares pelo papel que exercem:
• 60% respondeu que não saber
• 20,8% que sim
• 18,5% disse que não
Isso revela que há um grande desconhecimento sobre as diferenças de ganhos entre os gêneros dentro do campo. Portanto, é possível afirmar que a maioria das mulheres que atuam no UX Design e Design Digital não têm consciência das perdas financeiras que seu gênero acarreta em seus ganhos profissionais, conforme foi exposto com o auxílio das pesquisas do Panorama UX 2019 e 2020. Essa falta de dados sobre as disparidades financeiras entre os gêneros atrapalha o processo de espanto e a abertura à crítica em relação à realidade de desvantagem, experimentada pelas mulheres que atuam neste campo, em relação aos homens que atuam na área. A opinião cristalizada de que não estão a par das diferenças de ganhos entre os gêneros atrapalha o exercício crítico que poderia levar a reivindicações por paridade salarial entre os gêneros e mais vagas reservadas para mulheres em altos cargos, uma prática que aos poucos vem se tornando mais comum em empresas que atuam no Brasil e que buscam ser conhecidas por suas ações de responsabilidade social com as mulheres como: Natura, Boticário, Grupo Soma e mais algumas outras empresas. E sua maioria organizações que têm um público consumidor majoritariamente feminino.
Um modo de resolver a disparidade de ganhos entre os gêneros, dentro da área do UX Design e Design Digital em geral, seria a política de paridade de ganhos entre os gêneros, onde não seria permitido pagar os maiores valores somente há um dos gêneros. Devendo existir um número equivalente de integrantes de cada gênero nas empresas com salários pareados. Para que essa estratégia fosse efetivada seriam criadas vagas exclusivas para mulheres e outros gêneros (respeitando suas devidas proporções) nas posições mais altas, ganhando o mesmo que seus pares masculinos pelo mesmo trabalho. Deste modo seria possível construir um novo cenário de equidade de poder entre os gêneros. O filósofo Foucalt, em sua obra “Vigiar e Punir” ao falar sobre disparidades de poder, cita que:
"...é necessário admitir que esse poder exerce mais do que possui, que não é o «privilégio» adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito global das suas posições estratégicas – efeito que é manifestado…" (FOUCAULT, 2013 p.722)
Ao citar que o poder que cria abismos entre grupos dominantes e dominados, provém de estratégias do grupo dominante, ele propõe uma reflexão sobre o exercício contínuo do poder, evidenciando que ele não é um bem estático e está a todo momento moldando as relações, sendo fluído. Quando falamos sobre disparidade financeira entre os gêneros estamos também abordando o tema das consequências que essa diferença de recursos geram no exercício do poder entre os gêneros. O discurso subjetivo que vem junto com a opressão financeira feminina constrói a falsa impressão de que mulheres são menos capazes do que os homens. Ao tolher o poder financeiro do gênero feminino, o masculino passa também a exercer poder sobre esse grupo, controlando seus corpos e lhe obrigando a ocupar a posição de submissão na força de produção da sociedade como trás Foucault, no mesmo livro, onde ele menciona:
“…o corpo está também diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder operam sobre ele um efeito imediato; investem-no, marcam-no, controlam-no, supliciam-no, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimónias, exigem-lhe sinais. Este investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e recíprocas, à sua utilização económica; em boa parte, é como força de produção que o corpo é investido de relações de poder e de domínio;..." (FOUCAULT, 2013 p.701)
O corpo, como apresenta Foucault, é território de disputa e é atravessado pelas relações de poder, como ocorre ao constatarmos a opressão financeira de pessoas que se identificam como mulheres. Quando analisamos as estruturas de poder nos deparamos com muito mais homens em cargos de poder e prestígio financeiro. Assim, vemos que quem promove ou deixa de promover, remunera de modo justo ou sub remunera as mulheres são em sua maioria homens. Para conseguir ascender financeiramente, as mulheres devem entrar no território das relações, estar conscientes do preconceito que lhe atravessa e buscar estratégias para superá-lo pelo menos parcialmente. Foucault, desenvolve em sua obra, já citada, como a sociedade do controle determina quais cidadãos são aptos e quais são loucos. Podemos fazer um paralelo entre os loucos e as mulheres pois no universo corporativo são majoritariamente os executivos que determinam o valor do trabalho de uma mulher, do mesmo modo como médicos e juízes determinam quem são os loucos e quem são os aptos a conviver em sociedade. Os homens validam a competência das mulheres mesmo sem que tenham clareza sobre o quanto são atravessados por pensamentos e julgamentos machistas e misóginos em relação às mulheres. A desobediência feminina tem importância histórica no processo de revisão da opressão feminina no campo do trabalho. Segundo reportagem do site UOL sobre o dia 8 de março, "O dia internacional da mulher", passou a ser comemorado nesse dia desde 1975, quando a ONU o elegeu como o dia anual de representação da luta feminina. Ele foi escolhido porque foi nesse dia, em 1859, que operárias de uma fábrica em Nova York entraram em greve a fim de reivindicarem a equiparação de seus salários com o dos homens que exerciam as mesmas funções, além da redução de sua extensa jornada de trabalho e o direito à licença maternidade. Foucault, fala em "Vigiar e Punir" sobre como a desobediência das regras sociais é vista negativamente por propor uma ruptura do modelo de mundo então vigente:
"...de um poder que impõe as regras e as obrigações como laços pessoais cuja ruptura constitui uma ofensa e exige vingança; de um poder para o qual a desobediência é um ato de hostilidade, um início de revolta, que, no seu princípio, não é muito diferente da guerra civil; " (FOUCAULT, 2013 p.1271)